Segue abaixo um relato sobre um Combatente da FEB durante a Campanha da Segunda Guerra Mundial, na Itália (1945). O texto mostra apenas um exemplo de milhares, de quem são os verdadeiros merecedores das Medalhas Militares do Exército Brasileiro. Espero que gostem!
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| Força Expedicionária Brasileira |
"... MAS A VERGONHA É MAIOR... "
Relaxado ao extremo, andava sempre desuniformizado. E, diariamente, ante a sua postura desengonçada vendo-o no desmazelo costumeiro, repreendia-o : - Jovino, abotoe a camisa. E ele , na frouxidão do gesto caipira, sorrindo, ia se arrumando. Semi-alfabetizado, mal "ferrava" o nome : Jovino Alves de Santana.
Pertencia ao 3º Pelotão, comandado pelo bravo Tenente Iporan. Na defensiva do inverno, revelara-se exímio patrulheiro. Numa ação da Companhia, se não me engano ,no ataque a Castelnuovo, foi ferido e evacuado. E dele não mais tivemos notícias.
Em abril de 1945, às vésperas do ataque a Montese, o S/ 1 do Regimento, Cap. Luiz de Faria, chama-me ao telefone :
- Sidney, o depósito do pessoal acaba de nos comunicar que o Soldado Jovino Alves de Santana desertou de lá. Como ele pertenceu a sua Companhia, é possível que apareça por aí.
- Entendido - respondi - Estou com o efetivo completo, mas, se o Jovino aparecer, pretendo ficar com ele por aqui.
- Veremos - retrucou-me o Capitão Faria - se ele chegar, avise-me. Até logo.
- Até logo.Dois dias após a minha conversa com o Cap. Faria, já noitinha, surge-me o Jovino. Cansado, faminto, só trazia a roupa do corpo, o cinto de guarnição e o capacete.
- Capitão, fugi do "depóis ".
- Já sei - respondi-lhe. Só que você não fugiu, pois já é considerado desertor. Quantos dias levou para chegar até aqui e como soube aonde estamos ?
- Demorei dois dias, Capitão. Vim pegando carona com os americanos até Pistóia; de lá arranjei passagem até Porreta, onde descobri um jipe do nosso batalhão que me trouxe até Iola; em Iola me ensinaram o caminho e de lá vim a pé.
- Demorei dois dias, Capitão. Vim pegando carona com os americanos até Pistóia; de lá arranjei passagem até Porreta, onde descobri um jipe do nosso batalhão que me trouxe até Iola; em Iola me ensinaram o caminho e de lá vim a pé.
- E por que fugiu do depósito ?
- Ora, Capitão, aqueles "Sacos C " viviam me sugando na instrução e me ensinando coisas que estou cansado de saber.
Imediatamente liguei o telefone para o Faria e lhe dei a notícia. Pedi-lhe que resolvesse a situação irregular do Jovino e o deixasse comigo. E que providenciasse com o S/4 o armamento e o resto do equipamento para o fujão. Faria, com a sua costumeira eficiência, resolveu o caso. Mas Jovino estava faminto. Sua última refeição fora o café da manhã em Porreta-Terme . Assim, mandei que lhe dessem algo para comer.
Saciada sua fome, voltei ao diálogo interrompido.
- Jovino, você demonstrou ser um bom combatente e tomou parte em quase todas as ações da nossa Companhia. Foi ferido em combate e, depois de restabelecido enviado para o depósito. Acho que já cumpriu seu dever e nada mais tem a fazer aqui .
- Tá certo, Capitão. Mas , depois de passar tanto tempo na frente, não gosto de receber instrução de gente que nunca viu um tedesco. Além disso, estava com saudades do pessoal da Companhia e quero ficar aqui.
Encarei-o firme, e lhe perguntei :
- Jovino, você não tem medo de morrer ?
E ele, com a sinceridade dos simples, e sem baixar os olhos, respondeu-me:
- Ih, meu Capitão. O senhor me pergunta se tenho medo? Tenho demais, mas a vergonha é maior que ele.
Senti vontade de abraçá-lo. Ali estava a bravura anônima e simples da nossa gente representada nas palavras singelas daquele caboclo.
Levantei-me e fui até ao PO. Ao longo a torre da igreja de Montese, iluminada por um luar de primavera italiana, parecia resplandecer como a couraça de um velho guerreiro romano, enquanto os vultos esguios dos astanheiros que se inclinavam pelas encostas íngremes semelhavam infantes em progressão.
A beleza do cenário e as palavras do Jovino aumentaram a confiança que eu depositava nos bravos que a sorte me destinava comandar.
Até o amanhecer, com o fone ao ouvido, recebendo os relatórios das patrulhas ou a s ordens do comando do Batalhão cismava, recordando o que me dissera aquele soldado que desertara de um relativo conforto na retaguarda para, talvez, morrer ao lado de seus companheiros, nas duras pelejas que são o apanágio dos melhores combatentes : os da infantaria.A beleza do cenário e as palavras do Jovino aumentaram a confiança que eu depositava nos bravos que a sorte me destinava comandar.
Como poderia aquele humilde caboclo, que mal garatujava o nome, definia a coragem em tão poucas palavras, enquanto que psicólogos, para chegarem à mesma conclusão devaneiam em centenas de páginas de volumosos tratados ! Até hoje não sei . Era talvez a própria vida que lhe dava a explicação dos sentimentos que o levavam a afrontar os perigos.
E veio a sangueira de Montese. O inferno das granadas que explodiam sobre nossas cabeças, o sinistro pipocar das "lourdinhas", o ronco das máquinas no céu e nos vales pouco representavam para nós, se comparados ao horror das minas que, a cada passo , ameaçavam nos destroçar.
E o Jovino, sempre no primeiro escalão, na primeira linha, impávido, seguia a sorte do Regimento, ao lado do seu excepcional comandante de Pelotão ajudando a conquistar um objetivo quase impossível de ser atingido.
Não tremia, não se assustava e, calmo, estava nas mais arriscadas empresas, avançando sempre, sem jamais demonstrar o mais leve temor.
No tremendo bombardeio que o inimigo despejou sobre Montese durante os cinco dias subsequentes, nas margens do Rio Panaro, na implacável e estafante perseguição ao Exército Alemão em retirada, até Turim, também estava o Jovino : destemido, simplório, relaxado, as calças fora das perneiras, a camisa desabotoada...
Até que um dia a guerra terminou. Regressamos ao Brasil e, dois dias após, minha Companhia foi dissolvida.
Com lágrimas nos olhos , abracei um a um, dos bravos que pôr tanto tempo sofreram comigo as mesmas incertezas e os mesmos azares da guerra. Mas, nem todos estavam naquela despedida : vinte e um, desde o destemido tenente Ary Rauen até o bem-humorado Soldado "Alegria" ficaram na Itália, onde à sombra dos ciprestes do cemitério de Pistóia, descansavam para sempre.
Passaram-se os tempos. Já Coronel e servindo no Rio encontrei-me com antigo sargento de minha companhia e meu afilhado de casamento, José Marinho de Andrade, então capitão dentista do Exército e que , como tantos de seus companheiros , se destacaram na guerra. Falamos sobre a campanha e relembramos os memoráveis combates da Itália e os companheiros que lá estiveram conosco. Soube então, que o Jovino se encontrava no Maracanãzinho, a dependência dos irrecuperáveis do pavilhão de Neuropsiquiatria do Hospital Central do Exército.
Fui visitá-lo. Disse-me o enfermeiro que me atendeu que aquele paciente era completamente "desligado", isto é, a ninguém reconhecia e de nada sabia. Entrei na enfermaria e lá o encontrei. Velho, desdentado, enrugado, o cabelo grisalho, enfim, um mulambo, um bagaço de gente. A sombra daquele expedicionário intrépido que, com tantos outros bravos, forçara a conquista de Montese.
Chamei-o pelo nome : Jovino !No fundo de sua consciência, minha voz talvez soasse como na rigidez das antigas ordens de comando. Ele estremeceu, olhou-me com o seu olhar idiota e um lampejo de lucidez fugurou o seu mundo de trevas. Pôs as mãos nas passadeiras das medalhas que me ajudara a conquistar e disse apenas : Meu Capitão... E se "desligou" de novo.
Meus olhos se embaciaram e dali sai literalmente arrasado. Deixei-o, pensando no que ele me dissera quando apareceu no meu PC após a fuga do Depósito.
_ Ih!! Meu Capitão, o senhor me pergunta se tenho medo? Tenho demais, mas a vergonha é maior...
_ Ih!! Meu Capitão, o senhor me pergunta se tenho medo? Tenho demais, mas a vergonha é maior...
E murmurei baixinho: "Obrigado Jovino, Deus lhe pague pela mais linda definição de coragem que já ouvi em toda minha vida e que você, um dia, me deu. Obrigado por me haver reconhecido. Obrigado por tudo".
Fonte: ("Revista Militar Brasileira" - Número Especial - Secretaria Geral do Exército - Brasília - 1973)





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