10/05/2011

Série - Nossos Verdadeiros Heróis

Segue abaixo um relato sobre um Combatente da FEB durante a Campanha da Segunda Guerra Mundial, na Itália (1945). O texto mostra apenas um exemplo de milhares, de quem são os verdadeiros merecedores das Medalhas Militares do Exército Brasileiro. Espero que gostem!
Força Expedicionária Brasileira
"... MAS A VERGONHA É MAIOR... "
Era um tipo baixo, franzino, abrugado, natural dos sertões matogrossensses. Nada se sabia de sua família. Estava na 2ª Cia desde os terríveis tempos de S. João Del Rei, na tumultuada fase da organização do 11º RI.
Relaxado ao extremo, andava sempre desuniformizado. E, diariamente, ante a sua postura desengonçada vendo-o no desmazelo costumeiro, repreendia-o : - Jovino, abotoe a camisa. E ele , na frouxidão do gesto caipira, sorrindo, ia se arrumando. Semi-alfabetizado, mal "ferrava" o nome : Jovino Alves de Santana.
Pertencia ao 3º Pelotão, comandado pelo bravo Tenente Iporan. Na defensiva do inverno, revelara-se exímio patrulheiro. Numa ação da Companhia, se não me engano ,no ataque a Castelnuovo, foi ferido e evacuado. E dele não mais tivemos notícias.

Em abril de 1945, às vésperas do ataque a Montese, o S/ 1 do Regimento, Cap. Luiz de Faria, chama-me ao telefone :
- Sidney, o depósito do pessoal acaba de nos comunicar que o Soldado Jovino Alves de Santana desertou de lá.  Como ele pertenceu a sua Companhia, é possível que apareça por aí.

- Entendido - respondi - Estou com o efetivo completo, mas, se o Jovino aparecer, pretendo ficar com ele por aqui.

- Veremos - retrucou-me o Capitão Faria - se ele chegar, avise-me. Até logo.
- Até logo.
Dois dias após a minha conversa com o Cap. Faria, já noitinha, surge-me o Jovino. Cansado, faminto, só trazia a roupa do corpo, o cinto de guarnição e o capacete.
Entrou no meu PC e sem qualquer formalidade, foi dizendo :

- Capitão, fugi do "depóis ".

- Já sei - respondi-lhe. Só que você não fugiu, pois já é considerado desertor. Quantos dias levou para chegar até aqui e como soube aonde estamos ?
- Demorei dois dias, Capitão. Vim pegando carona com os americanos até Pistóia; de lá arranjei passagem até Porreta, onde descobri um jipe do nosso batalhão que me trouxe até Iola; em Iola me ensinaram o caminho e de lá vim a pé.
- E por que fugiu do depósito ?

- Ora, Capitão, aqueles "Sacos C " viviam me sugando na instrução e me ensinando coisas que estou cansado de saber.

Imediatamente liguei o telefone para o Faria e lhe dei a notícia. Pedi-lhe que resolvesse a situação irregular do Jovino e o deixasse comigo. E que providenciasse com o S/4 o armamento e o resto do equipamento para o fujão. Faria, com a sua costumeira eficiência, resolveu o caso. Mas Jovino estava faminto. Sua última refeição fora o café da manhã em Porreta-Terme . Assim, mandei que lhe dessem algo para comer.
Saciada sua fome, voltei ao diálogo interrompido.
- Jovino, você demonstrou ser um bom combatente e tomou parte em quase todas as ações da nossa Companhia. Foi ferido em combate e, depois de restabelecido enviado para o depósito. Acho que já cumpriu seu dever e nada mais tem a fazer aqui .

- Tá certo, Capitão. Mas , depois de passar tanto tempo na frente, não gosto de receber instrução de gente que nunca viu um tedesco. Além disso, estava com saudades do pessoal da Companhia e  quero ficar aqui.
Encarei-o firme, e lhe perguntei :

- Jovino, você não tem medo de morrer ?

E ele, com a sinceridade dos simples, e sem baixar os olhos, respondeu-me:

- Ih, meu Capitão. O senhor me pergunta se tenho medo? Tenho demais, mas a vergonha é maior que ele.

Senti vontade de abraçá-lo. Ali estava a bravura anônima e simples da nossa gente representada nas palavras singelas daquele caboclo.
Levantei-me e fui até ao PO. Ao longo a torre da igreja de Montese, iluminada por um luar de primavera italiana, parecia resplandecer como a couraça de um velho guerreiro romano, enquanto os vultos esguios dos astanheiros que se inclinavam pelas encostas íngremes semelhavam infantes em progressão. 
A beleza do cenário e as palavras do Jovino aumentaram a confiança que eu depositava nos bravos que a sorte me destinava comandar.
Até o amanhecer, com o fone ao ouvido, recebendo os relatórios das patrulhas ou a s ordens do comando do Batalhão cismava, recordando o que me dissera aquele soldado que desertara de um relativo conforto na retaguarda para, talvez, morrer ao lado de seus companheiros, nas duras pelejas que são o apanágio dos melhores combatentes : os da infantaria.
Como poderia aquele humilde caboclo, que mal garatujava o nome, definia a coragem em tão poucas palavras, enquanto que psicólogos, para chegarem à mesma conclusão devaneiam em centenas de páginas de volumosos tratados ! Até hoje não sei . Era talvez a própria vida que lhe dava a explicação dos sentimentos que o levavam a afrontar os perigos.
E veio a sangueira de Montese. O inferno das granadas que explodiam sobre nossas cabeças, o sinistro pipocar das "lourdinhas", o ronco das máquinas no céu e nos vales pouco representavam para nós, se comparados ao horror das minas que, a cada passo , ameaçavam nos destroçar.
E o Jovino, sempre no primeiro escalão, na primeira linha, impávido, seguia a sorte do Regimento, ao lado do seu excepcional comandante de Pelotão ajudando a conquistar um objetivo quase impossível de ser atingido.
Não tremia, não se assustava e, calmo, estava nas mais arriscadas empresas, avançando sempre, sem jamais demonstrar o mais leve temor.
No tremendo bombardeio que o inimigo despejou sobre Montese durante os cinco dias subsequentes, nas margens do Rio Panaro, na implacável e estafante perseguição ao Exército Alemão em retirada, até Turim, também estava o Jovino : destemido, simplório, relaxado, as calças fora das perneiras, a camisa desabotoada...

Até que um dia a guerra terminou. Regressamos ao Brasil e, dois dias após, minha Companhia foi dissolvida.

Com lágrimas nos olhos , abracei um a um, dos bravos que pôr tanto tempo sofreram comigo as mesmas incertezas e os mesmos azares da guerra. Mas, nem todos estavam naquela despedida : vinte e um, desde o destemido tenente  Ary Rauen até o bem-humorado Soldado "Alegria" ficaram na Itália, onde à sombra dos ciprestes do cemitério de Pistóia, descansavam para sempre.
Passaram-se os tempos.  Já Coronel e servindo no Rio encontrei-me com antigo sargento de minha companhia e meu afilhado de casamento, José Marinho de Andrade, então capitão dentista do Exército e que , como tantos de seus companheiros , se destacaram na guerra. Falamos sobre a campanha e relembramos os memoráveis combates da Itália e os companheiros que lá estiveram conosco. Soube então, que o Jovino se encontrava no Maracanãzinho, a dependência dos irrecuperáveis do pavilhão de Neuropsiquiatria do Hospital Central do Exército.

Fui visitá-lo. Disse-me o enfermeiro que me atendeu que aquele paciente era completamente "desligado", isto é, a ninguém reconhecia e de nada sabia. Entrei na enfermaria e lá o encontrei. Velho, desdentado, enrugado, o cabelo grisalho, enfim, um mulambo, um bagaço de gente. A sombra daquele expedicionário intrépido que, com tantos outros bravos, forçara a conquista de Montese.
Chamei-o pelo nome : Jovino !
No fundo de sua consciência, minha voz talvez soasse como na rigidez das antigas ordens de comando. Ele estremeceu, olhou-me com o seu olhar idiota e um lampejo de lucidez fugurou o seu mundo de trevas. Pôs as mãos nas passadeiras das medalhas que me ajudara a conquistar e disse apenas : Meu Capitão... E se "desligou" de novo.

Meus olhos se embaciaram e dali sai literalmente arrasado. Deixei-o, pensando no que ele me dissera quando apareceu no meu PC após a fuga do Depósito.
_ Ih!! Meu Capitão, o senhor me pergunta se tenho medo? Tenho demais, mas a vergonha é maior...

E murmurei baixinho: "Obrigado Jovino, Deus lhe pague pela mais linda definição de coragem que já ouvi em toda minha vida e que você, um dia, me deu. Obrigado por me haver reconhecido. Obrigado por tudo".

Fonte: ("Revista Militar Brasileira" - Número Especial - Secretaria Geral do Exército - Brasília - 1973)


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